Day zero

It’s the first day after the apocalypse. A little bit less than half of the state finds itself in a deep deep crisis, crying and suffering like hell: 2009 and 2005 all over again. Somewhere, someone sits on a couch, in a dirty home full of shattered glass on the floor.

It’s gonna be ok, it’s gonna be fine, he lies to himself.

Spotify on the TV. Deep breath. Você Virou Saudade, by Só Pra Contrariar plays softly in the background.


Aqui em casa, acendemos as luzes do jeito antigo. Às vezes é preciso apalpar a parede até encontrar o interruptor. E quando o encontramos, fazemos uma leve pressão no plástico do botão. Essa pressão faz alguma coisa acontecer lá dentro da parede. Coisa essa que só meu pai pode dizer o que é. Essa ação Talvez acenda a luz. Eu disse talvez.

É que aqui em casa, a chance da luz acender após apalpar a parede, encontrar o interruptor e fazer uma leve pressão no plástico do botão é de 50%. …


hold tight, wait for another night

make a stand, stay home,

by the window, by the phone

trust me, it will not fade,

real things resist to live another day.


Ask one, ask twice. Ask again if you didn’t understand.

Wake up early or don’t. Get there in time or make yourself some of it. And even sometimes don’t get there at all — you’ll be surprised how people easily forget about it.

Jump off your chair in the middle of the day, tell your boss who’s the real boss, otherwise he will boss you around even though you’re way pass company time.

Time is yours, ours, don’t let a day go by without realizing that.

Be the real deal. Be the fake. Fake a smile, fake a tear, manipulate things, thoughts and prayers.

Be forgiven or even don’t forget. For goodness sake, be something.

Be annoying.


Segunda-feira, 30 de junho de 2025.

Você chega em casa às 19 horas, tarde o bastante para o sol ter ido embora. Joga as chaves, o casaco e a carteira em cima da mesa. Os gatos cheiram você para garantir que nenhum outro felino ousou chegar perto: vasilha de ração vazia, potinho de água pela metade. Você faz um refil completo: água, comida e carinho no focinho.

Na cadeira tem roupas e no sofá também, mas de tão cansado você deita por cima de tudo, amassa colarinhos e mistura cores vibrantes e as neutras cinzas, pretas e brancas. Ao assistente…


Quinta-feira, 29 de junho de 2023.

Hoje o frio parece ser controlado pelo relógio: seis graus, seis horas da madrugada.

Toca o despertador, grita o despertador. Acordar em dias assim é calvário, é punição por mau comportamento na escola — e você só está pagando agora, com juros compostos corrigidos conforme a inflação.

É ainda meio de ressaca que você levanta. Os olhos custam a abrir e você logo precisa ir trabalhar.

Fala sozinho e sem pensar:

“hoje eu poderia fazer home office”

Mas logo lembra do ano que não foi, do tempo que perdeu, das ruas que até do…


Sexta-feira, 18 de junho de 2021.

Saio da firma às 17 horas independentemente do que ainda precisa ser feito: dias frios e de sol são raros e o trabalho pode ficar para a segunda-feira.

Vou até um bar. Quentão na mão, sozinho, esperando pelos amigos que logo chegam. Esta será uma festa junina dupla, eles dizem.

A noite se aproxima. A fogueira queima a palha e a lenha pouco a pouco.

À medida em que a escuridão esconde a luz do dia, surgem chamas que iluminam e só não aquecem mais que o pinhão, o quentão e os sorrisos de felicidade de quem esperou tanto por isso.

Festa, música, aglomeração: é, enfim, a verdadeira noite de São João.


Noite, fim do expediente. A chuva cessa e volta a cada pouco, em pancadas cada vez mais cheias. Depois de oito horas de trabalho eu só quero ir pra casa, mas as rotas do centro da cidade têm um charme que não se pode explicar, até porque nem são tão belas assim.

Mudo o caminho, escolho o mais longo deles. Engraçado como as floriculturas ficam abertas até tarde hoje em dia, né? Ande um pouco mais que o habitual e note que é verdade. Paro numa delas, olho: flores amarelas e vermelhas e verdes, e de algumas outras cores que…


A memória não é um HD. Ninguém a apaga com a mesma facilidade que se reseta os discos e dispositivos. Não somos pen drive, não somos dados.

O que somos são ações, desejos e discursos — que acontecem ou aparecem com a intensidade inconvenientemente necessária a cada dia.

A memória também não sobrescreve, ela deixa a lembrança viva — um contra que também é também um pró. Ela celebra o que é bom e o que é ruim sem distinção, como opostos iguais, com um equilíbrio que na natureza não há.

Acertos e erros, este com certeza é um texto…


Calçada de pedras, tortas e gastas das pisadas igualmente tortas de tênis e sapatos — há muito que a poeira encontrou morada nos vincos , entre cada quatro ou cinco pedras.

A bituca de cigarro, gasta e sem o papel que a envolvera um dia, mostra — faz ver que o humano não só vive ali, caminha por ali e fuma por ali, mas que também abusa sem dó alguma daquele espaço.

As árvores centenárias não arranham mais os céus, e não porque falham em ser altas, mas porque nos acostumaram aos insanos prédios cinzas que ousam em ir mais…

Leonardo Norato

Redator de texto curto. 4.921 no Uber. Escrevo em inglês and also in portuguese.

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